Aqui nesse planeta, principalmente no ocidente, há muita ênfase em se ter alguém na vida.
Esse alguém na vida varia de pessoa para pessoa, mas o mais esperado nessa expressão é de ter alguén na sua vida significa ter uma parceira amorosa.
Sem uma vida amorosa ninguém é feliz, é o que costumam dizer.
Nos meus primeiros 18 anos de vida, eu vivi com muito pouca gente da minha idade ao meu redor.
Tive uma briga com a única amiga que me restou depois do primeiro grau, por volta dos 15 ou 16 anos e só a vi no dia em que eu estava mudando da casa que foi meu lar por 18 anos.
Ela estava no portão da casa dela, éramos vizinhas, e pude ler seus lábios dizendo: a Deivi está mudando.
Então eu posso dizer que desde meus 16 anos não tive alguém que fosse meu amigo, fui e sou amiga de muitos, mas não consegui cultivar a amizade de ninguém. Há pessoas que eu sei que se importam comigo, mas não são meus amigos.
Já passei meses sem ver ninguém, sem falar com ninguém, sem o meu telefone tocar.
Você acha isso triste?
Talvez se eu tivesse crescido com muitos amigos, família, festas de aniversário, Natal, enfim, coisas que "forçam" as pessoas se encontratem, eu teria mais gente na minha vida.
Por ter crescido dentro de um sistema de crença que aliena seus membros, quando de lá saí, eu era uma ilha. Fizeram-me tomar distância de quem não fosse membro do culto, em consequência cresci com zero amigos, se tive uma é por que era minha vizinha, dei sorte por 16 anos.
Eu sei que o fato de eu ter sido abusada, alienada, abandonada e viver com meus avós ao invés de meus pais, afetou a minha normalidade como criança, eu era diferente, mas ainda não sabia,
Depois de ganhar independência, segui sozinha e sozinha sigo até hoje. Tentei compartilhar a minha vida, mas eu não sei se todo mundo sabe oque é ter pessoas em sua vida. Eu nunca tive o básico, e por isso mesmo eu sei o quanto o básico é necessário.
E para se dar e receber o básico você precisa confiar e confiança é quase que fé.
Não por que não há como se conhecer alguém 100%, mas por que o outro não está consciente de quem é, do que está enganjando ou até mesmo suas motivações. Muita gente vive no piloto-automático e por isso mesmo criar laços fortes com alguém quando já se alcançou a maturidade é muito mais complexo do que simpelmente manter uma amizade que você já tem desde infância.
Para fazer as coisas mais difídeis para mim, sou imigrante e sou mulher.
Para complicar ainda mais, eu gosto de ler, tudo, sou curiosa e não tenho paciência para papo furado oque a maioria curte e pratica.
Já tive muita gente querendo ser minha amiga, e eu sou amiga delas, mas não são minhas amigas.
Acho que por ter sido tão violada em meus relacionamentos mais íntimos, hoje não abro mão de ter somente quem eu quero na minha vida, e como o mercado está ruim, eu tenho muitos vizinhos, camaradas, parceiros, companheiras e gente-finas, mas não tenho amigos.
Tampoco tenho inimigos, oque quero dizer é que não tenho ninguém que eu tenha que considerar caso eu precise tomar uma decisão importante, a não ser claro a Pink e a Woolie, mas elas eu levo comigo sem problema.
Vivendo assim e não achando a situação ruim nem boa, sinto mais leveza em minhas relações. Elas são realmente sinceras, não há interesse ou dependência, há só mesmo um querer de se estar ali um pouco e depois voltar para casa sentindo-se bem por ter encontrado essa ou aquela pessoa, trocado idéias civilmente e seguido com meu dia.
Sem expectativas, sem inseguranças, você, seus cachorrinhos caminhando pela vida e batendo papo com quem tem um tempinho.
Eu, como qualquer um da minha raça, sou um animal social, gosto muito de estar entre pessoas, mas aprendi a gostar mais ainda de estar comigo mesma. Meus livros, meus textos, minhas idéias, meus artistas, minhas plantas, minha pequena família.
Noto que homens criam amizades mais facilmente que mulheres, não tenho nenhuma amiga, nenhuma, zero.
Faz-me falta? Não sei, só quando tiver e perder ou ela viajar é que vou saber.
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